Todos os jogos deste dossiê começam no mesmo sítio: uma montanha, um trono e um deus de barba branca com um raio na mão. É uma imagem tão gasta que quase nos esquecemos de que tem autor. Chama-se Hesíodo, viveu por volta de 700 a.C. e deixou, na Teogonia, a versão mais conhecida de como Zeus chegou ao poder. Vale a pena voltar a ela, porque explica quase tudo o que os jogos fazem — e o que preferem ignorar.
IA guerra antes dos deuses
Antes dos olímpicos mandavam os Titãs, filhos de Gaia (a Terra) e de Úrano (o Céu). O mais novo, Cronos, destronou o pai e, avisado de que um filho lhe faria o mesmo, passou a engolir os seus à nascença: Héstia, Deméter, Hera, Hades e Poseidon. Reia, a mãe, escondeu o sexto em Creta e deu a Cronos uma pedra embrulhada em panos. O sexto era Zeus.
Crescido, Zeus obrigou o pai a devolver os irmãos e abriu guerra aos Titãs. Foi a Titanomaquia: dez anos de combate, os deuses novos no monte Olimpo, os antigos no monte Ótris. Zeus venceu porque soube arranjar aliados — libertou do Tártaro os Ciclopes e os Hecatonquiros, gigantes de cem braços. Os Ciclopes pagaram em armas: o raio para Zeus, o tridente para Poseidon, o elmo da invisibilidade para Hades.
Três irmãos, três armas, três territórios. A mitologia grega já vinha com sistema de classes.Zona Aberta
Derrotados os Titãs e fechados no Tártaro, os três irmãos repartiram o mundo: o céu para Zeus, o mar para Poseidon, o submundo para Hades. Para um designer de jogos, isto é um presente. Cada deus chega com um elemento, uma arma e um papel definidos há quase três mil anos. É por isso que, nas fichas de Deuses em campo, os arquétipos quase se escrevem sozinhos.
IIDoze lugares à mesa
A tradição fixou em doze os deuses principais do Olimpo: Zeus, Hera, Poseidon, Deméter, Atena, Apolo, Ártemis, Ares, Afrodite, Hefesto e Hermes, com o décimo segundo lugar a oscilar entre Héstia e Dioniso consoante a fonte. Hades, que vive debaixo da terra, costuma ficar de fora da contagem — pormenor que os jogos ignoram alegremente, porque um deus dos mortos é demasiado bom para deixar no banco.
O que os jogos aproveitam melhor é a rivalidade entre Atena e Ares. Ambos são deuses da guerra, mas de guerras diferentes: ela é a estratégia, a disciplina, a defesa da cidade; ele é a fúria do corpo a corpo. Em Deuses do Olimpo, basta ver os dois lado a lado para perceber quem aguenta a linha e quem a parte. Até o nome do estúdio, Aegis, é uma piscadela: a égide é o escudo de Zeus e de Atena.
IIIOs heróis fazem o trabalho sujo
Os deuses mandam; quem sua são os heróis. Héracles — Hércules para os romanos, e para quase todos os jogos — é filho de Zeus e da mortal Alcmena, e cumpre doze trabalhos ao serviço do rei Euristeu, do leão de Nemeia à hidra de Lerna. Perseu, filho de Zeus e de Dânae, corta a cabeça à Medusa olhando-a apenas no reflexo do escudo, com a ajuda de Atena e de Hermes, e salva Andrómeda de um monstro marinho no regresso.
Repara na estrutura: uma lista de missões, um chefe no fim de cada uma, equipamento emprestado por um deus. Os trabalhos de Héracles são, sem exagero, a primeira campanha por níveis da literatura ocidental. Olympus Rising percebeu-o bem: quem sobe a rampa é um herói mortal; os deuses ficam por cima, a emprestar poderes.
Os doze trabalhos são a primeira campanha por níveis de que há registo.Zona Aberta
IVO que se perde na tradução
Perde-se, antes de mais, a ambiguidade. Os deuses gregos são vaidosos, ciumentos e injustos; nos jogos, tornam-se uma equipa simpática com cores complementares. Perde-se também a cronologia — Gaia, avó de Zeus e mãe dos Titãs, aparece em Mythic Heroes como mais uma heroína para evoluir, ao lado de figuras de outras mitologias.
Não nos escandaliza. O mito grego nunca teve versão única: cada poeta mexia no que herdava. O que pedimos a um jogo não é fidelidade de manual, é que o raio de Zeus pese quando cai. Dos três que testámos, um consegue-o por inteiro, outro quase, e o terceiro prefere que fiques a ver. Os detalhes estão no Panteão.